Quando repor testosterona é a dúvida que mais chega ao consultório depois de um exame de sangue com o valor abaixo do esperado. E a resposta, ao contrário do que muita propaganda sugere, não sai de um número isolado. Em 2026, a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) publicaram um posicionamento conjunto sobre hipogonadismo masculino, no International Braz J Urol. O documento organiza o assunto: quais valores fecham o diagnóstico, como o exame precisa ser colhido e o que fazer depois. Neste texto, eu traduzo esse conteúdo para a linguagem da consulta.
Quando repor testosterona não é uma decisão só do laboratório
Hipogonadismo é a soma de duas coisas, e as duas precisam estar presentes. Primeiro, os sintomas: queda de libido, cansaço persistente, perda de massa muscular, alteração de humor, dificuldade de ereção. Depois, a confirmação laboratorial da testosterona baixa. Portanto, um exame alterado num homem sem queixa nenhuma não fecha diagnóstico — assim como sintoma sem exame alterado também não fecha.
Essa distinção parece detalhe técnico, mas ela muda a conduta. Muitos sintomas atribuídos ao hormônio vêm de outro lugar: apneia do sono, depressão, sedentarismo, uso de álcool, tireoide, medicamentos de uso contínuo. Além disso, sono ruim e obesidade derrubam a testosterona por conta própria. Ou seja, tratar a causa às vezes normaliza o hormônio sem nenhuma reposição. Se você quer entender melhor os sintomas de testosterona baixa e quando eles merecem investigação, esse texto complementa o que vem a seguir.
Os valores que o documento de 2026 utiliza
O exame inicial é a testosterona total. A partir dele, o posicionamento trabalha com três faixas, e cada uma leva a um caminho diferente.
Abaixo de 264 ng/dL
Nessa faixa, com sintomas compatíveis, o diagnóstico se sustenta. Ainda assim, a confirmação em segunda amostra continua obrigatória, pelo motivo que explico no próximo tópico.
Acima de 350 ng/dL
Aqui o documento considera o hipogonadismo afastado. Logo, o sintoma que levou o paciente ao consultório tem outra origem, e a investigação segue por outro caminho — não pela reposição hormonal.
Entre 264 e 350 ng/dL: a zona cinzenta
Essa é a faixa em que a maioria dos homens cai, e é exatamente onde o exame simples não resolve. Nesse intervalo, o posicionamento pede dois exames complementares: SHBG e albumina. Com eles, calcula-se a testosterona livre pela fórmula de Vermeulen, e o valor de corte usado é 6,5 ng/dL. Vale registrar o detalhe, porque ele aparece trocado com frequência na internet: quem se dosa junto com a albumina para esse cálculo é a SHBG, não a própria testosterona livre.
Como o exame precisa ser colhido
Esta é a parte mais negligenciada, e ela sozinha explica boa parte dos diagnósticos errados. A testosterona varia ao longo do dia e cai naturalmente à tarde. Por isso, a coleta deve acontecer entre 7h e 10h da manhã, em jejum. Um exame colhido às 16h, depois do almoço, pode mostrar um valor baixo num homem perfeitamente normal.
Além do horário, existe a segunda coleta. O posicionamento orienta confirmar o resultado alterado em nova amostra, cerca de quatro semanas depois. Doença aguda, infecção, privação de sono e estresse derrubam o hormônio temporariamente. Consequentemente, um único exame baixo não autoriza começar um tratamento que costuma durar anos.
As formas de reposição e o que a diretriz recomenda
Confirmado o diagnóstico, entra a escolha da via. E aqui o documento é bastante direto. As injeções e os géis transdérmicos recebem recomendação Classe I, Nível de evidência A — a categoria mais forte dentro do próprio texto. Entre as injetáveis, o undecanoato de testosterona de ação longa aparece como opção preferencial, porque mantém níveis mais estáveis ao longo do intervalo entre as aplicações.
Já os implantes hormonais (pellets) recebem tratamento oposto. O posicionamento os classifica como Classe III, Nível B, citando a alta incidência de policitemia secundária — o aumento excessivo de glóbulos vermelhos no sangue. Ou seja, a mesma publicação que aprova injeção e gel desaconselha o implante. Isso importa, porque o implante costuma ser vendido como praticidade, sem que o paciente seja informado da posição das sociedades sobre ele.
Existe ainda uma segunda fronteira, e ela é igualmente clara: o documento não sustenta reposição por idade, estética ou desempenho. Para quem quer se aprofundar na parte cardiovascular dessa discussão, escrevi antes sobre reposição de testosterona e saúde cardiovascular.
O acompanhamento depois que o tratamento começa
Repor testosterona não é receitar e liberar o paciente. O posicionamento define um calendário de controle, e ele existe justamente por causa dos efeitos adversos possíveis.
- Hematócrito e testosterona total aos 3, 6 e 12 meses de tratamento.
- PSA e exame de próstata aos 3 e aos 12 meses.
- Alvo de níveis durante o acompanhamento: a seção de monitoramento trabalha com a faixa de 450 a 600 ng/dL.
O hematócrito é o exame que mais pesa nessa rotina. Quando ele sobe demais, o sangue fica mais espesso, e isso aumenta o risco de eventos trombóticos. Por isso a dose se ajusta — e, em alguns casos, o tratamento se interrompe. Nada disso se acompanha por conta própria.
O que esse documento é, e o que ele não é
Uma observação honesta, porque ela anda sumindo dos vídeos sobre o tema. Trata-se de um posicionamento conjunto de sociedades médicas, publicado em revista científica com acesso aberto. Ele organiza a evidência disponível e orienta a prática. No entanto, ele não é resolução do Conselho Federal de Medicina, e o CFM não endossa posicionamento de sociedade. São documentos de naturezas diferentes, e citar um no lugar do outro enfraquece o argumento.
Vale também dizer o que o texto não faz. Ele não discute nominalmente todo mito que circula nas redes sociais. Portanto, quando alguém afirma que “isso não está na diretriz”, às vezes o correto é dizer que o assunto simplesmente não foi abordado ali — o que é diferente de ter sido refutado. Essa diferença separa um argumento que se sustenta de um que cai na primeira contestação.
Se você tem queixas que podem ter relação hormonal, a avaliação começa pela consulta, e não pelo pedido de exame no balcão do laboratório. Atendo em saúde sexual masculina em Maringá, com investigação individualizada de cada caso. A leitura correta do exame depende do horário da coleta, do contexto clínico e do que mais está acontecendo com você.
Perguntas frequentes sobre quando repor testosterona
Pelo posicionamento de 2026 da SBU e da SBEM, valores acima de 350 ng/dL afastam o diagnóstico de hipogonadismo. Nesse caso, o sintoma que motivou o exame precisa ser investigado por outro caminho, e não pela reposição hormonal.
Porque o hormônio varia. Doença aguda, infecção, noites mal dormidas e estresse derrubam a testosterona de forma temporária. O documento orienta confirmar o resultado alterado em uma segunda amostra, cerca de quatro semanas depois da primeira.
Entre 7h e 10h da manhã, em jejum. A testosterona cai naturalmente ao longo do dia, então uma coleta à tarde pode mostrar valor baixo em um homem sem alteração alguma.
Não. O posicionamento de 2026 classifica os implantes como Classe III, Nível B, citando a alta incidência de policitemia secundária. As injeções e os géis transdérmicos, por outro lado, recebem recomendação Classe I, Nível A no mesmo documento.
Hematócrito e testosterona total aos 3, 6 e 12 meses, além de PSA e exame de próstata aos 3 e aos 12 meses. O hematócrito é o que mais pesa: quando sobe demais, a dose precisa de ajuste.
Agende sua avaliação em Maringá
Se o seu exame veio alterado, ou se os sintomas persistem mesmo com exame normal, vale conversar. Na consulta, avaliamos o quadro completo: histórico, medicações em uso, sono, peso e os exames colhidos do jeito certo. A partir daí, decidimos juntos se a reposição faz sentido para o seu caso. Agende sua consulta pelo WhatsApp.
Fonte primária deste artigo: Care of Patients with Male Hypogonadism: A Joint Position Statement, publicado no International Braz J Urol, 2026, com acesso aberto. Informações adicionais sobre saúde masculina estão disponíveis no portal da Sociedade Brasileira de Urologia.
Os dados apresentados vêm de estudos publicados e de diretrizes de sociedades de urologia. Não representam garantia de resultado. Indicação, benefícios, riscos e alternativas são avaliados individualmente na consulta.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a consulta médica.
Dr. Juliano Plastina — Urologista e Cirurgião Robótico em Maringá · CRM/PR 17954 · RQE 13.732 · Instagram @drjulianoplastina.uro